quarta-feira, 3 de março de 2010

Amor Desbotado


ilustração: Irisz Agocs

Já tive amor a fogo baixo, morno. O relacionamento não era ruim mas também não era bom: era feito tinta desbotada, folha envelhecida. Na tentativa de não sentir dor, vivia um amor apagado e assim ia vivendo meio viva, meio morta.

E quem disse que amor morno também não dói?! E para que viver nos cinzas da apatia quando se tem o laranja, o vermelho e o rosa infinito?

Não ao amor apagado!

Quero Amor que me tire do chão, que me faça voar os olhos
e me encha de Sol o peito.


Vou dançar pelos fios do tempo,

Amar livre sob o ar...

Quero entrar no mar do outro

e descobrir o cintilar.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Fim


ilustração: Irisz Agocs

Mais uma vez sinto a dor do Fim.


Tem Fim que é suave: vento cantando no rosto (esses são raros).

Fim é pausa na respiração.
É tempo de rearrumar tudo por dentro.


Tem fim que desequilibra e transborda a cachoeira dos olhos. Tem fim que tira o sono e nos revira por dentro feito maremoto. Tem fim verde-lama, cinza chuvoso e até preto desbotado.

Nem sei bem a cor desse fim...

A verdade é que só quem passa por um Fim é que sabe o tamanho do grito de dentro, a profundidade do corte no peito e quanto tempo vai precisar para pintar aquela dor com uma nova cor.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Rachadura no peito

Sabe a sensação de rachadura no peito? `As vezes começa como uma fenda pequenina. E então, aquela palavra seca, aquela atitute que machuca faz a fenda crescer feito era. E quando percebe, já nem respira mais o coração.

Fenda que vira rachadura é feito flor de girassol que murcha e não mais acorda com o canto do sol. Meu coração está como terra de sertão: seco, quebradiço, cheio de cortes descompassados.

Os sentimentos de ontem escorrem pelas fendas de rachaduras tortas... E o coração vai se esvaziando daquele amor que era flor de centeio.

E resta uma dor profunda. Um vazio.

O peito fica rouco, sem canto, sem vida.

E precisa ficar só, para que com o tempo - e só com o tempo - redescubra o seu encanto.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

A Serenata da Lira


D. Elizabeth

No domingo passado, lá fui eu pular e dançar no bloco "Gigantes da Lira", conhecido como o bloco das crianças. E para a minha surpresa, presenciei uma cena tão bela que meu coração desabrochou feito flor do sereno. A cena foi a serenata da música "Carinhoso" para Dona Elizabeth, uma senhorinha de cabelos brancos que todo ano espera em sua janela o bloco passar. E todo o ano o bloco pára em frente a seu prédio e canta a música do Pixinguinha para ela.

Para mim o Carnaval sempre foi alegria, dança e prazer. Mas nesse ano descobri que o carnaval aqui do Rio, o carnaval das marchinhas, é também delicadeza, gesto simples de amor, aroma de flor do campo e canto de pássaro d' alma.

E para dividir com vocês esse momento de cantoria e amor que transborda, coloquei aqui dois vídeos da Serenata da Lira.

Um Carnaval repleto de alegria, peito aberto e lira para todos!




terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Busca sem fim

Tem dias que percebo dores e emoções que vem sabe-se lá de onde... E a mente fica tentando racionalizar de onde veio aquele sentir. Só que muitas vezes, a mente não sabe a resposta.

O quanto realmente nos conhecemos? E como descubro de maneira profunda quem eu sou verdadeiramente? Não falo daquele eu sou que diz que minha profissão é tal, meu nome tal, etc. Falo de um "eu sou" que está além de todas as falações da mente e de todas emoções inconscientes que vem`a tona.

Alguém sabe a resposta?


Durante anos, venho tentando me conhecer através de diversas terapias e técnicas de auto-conhecimento. E apesar disso, sinto em alguns momentos que conheço apenas partes mínimas, fragmentos de mim.

A complexidade de existir é tamanha, o mistério de ser é tanto que só me resta respirar...

A busca é infinda.

Luluca - flor e céu




Luluca chegou! De bochechas rosa flor.
Para o calor dessa Terra, ela traz flor e céu.
Luluca sorri e clareia nossos cinzas.
Até seu chorinho nos faz cantar.

Ficamos (todos) apertados em volta do berço
contemplando o seu ninar.


(Com que sonhas neném?)


Luluca é anjo
Sorriso da manhã

Borboleta que colore nossas horas

Nosso tempo
Nosso ar.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Sua melodia

A vaga do mar leva a dor
E traz o sorriso do homem

Me encho de cor...

Me ensina a dançar no seu balanço!

Pega na minha mão e me roda.

Me deixa tonta,
E me revela a sua melodia.

Hoje

Só posso te dizer do amor que sinto agora.
Pois amor de amanhã é como sombra da tarde, longe do sol.

Gosto desse nosso amor de meio dia: amor a pino!
No meio dia (e na meia noite) cantamos palavras de chuva

Viramos crianças do alvorecer
E nos enlaçamos feito gatos.

Para que tantos "e se..."

O nosso amor é hoje.


terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Índios Fulniô



Os índios Fulniô volta e meia fazem uma visita ao espaço Rampa (na roda de cura das terças feiras). Tive o privilégio de ver e participar de alguns de seus rituais indígenas de cura: rituais de extrema beleza e vigor. Um dos índios fulniô disse que achava o homem branco mais forte que o índio, por conseguir viver no caos da cidade grande. Ele disse que não sobreviveria em uma dessas cidades.

Tento descrever aqui algumas sensações sentidas durante esses rituais indígenas:

Os pés batem cadenciados e tudo que parecia morto vibra por dentro. O canto, o chocalho e a dança fulniô transformam a sala em magia rodopiante, em sensações que não se explicam. Mas o sentir pulsa junto com os pés que batem no chão. O cheiro de ervas no ar se mistura com o canto enigmático que invade os ouvidos e consome cada sombra interna. Em um instante, o tempo suspende e só existe aquele momento: o profundo de cada um.

Os rituais dos índios fulniô me trazem vida. Não a "vida do cotidiano", muitas vezes mecânica e seca. Mas aquela vida esquecida, que deixamos de lado a cada vez que esquecemos de nós mesmos, a cada vez que vamos deixando os sonhos de lado: a vida do coração.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Pontos


Tarde


Na folha
o sol seca

o choro da manhã
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Solidão

Solidão escorre da noite
E veste meus olhos
de saudade
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Solidão II

Solidão de Lagarta
Faz a Borboleta
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Véu


Véu que faz chorar
Faz nascer a lua
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Ponto

Ponto no céu vaga-lume
Quero senti-lo cá dentro
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quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Lava

Tem dias que chove aqui dentro. São gotas de lava escura que viram meu olhos do avesso e me fazem olhar para dentro. A lava lava tudo... E depois traz o vai e vem das ondas. E onda do mar nunca é igual a outra. É como sorriso de lua.

Quando mais nova tinha tudo planejado (até o final da vida! Ha ha ha!). Uma parte minha ainda acreditava em certos clichês: se tiver vários títulos terei sucesso na vida; só tenho valor através do trabalho; quando conseguir mais dinheiro estarei melhor; no futuro e sempre no futuro as coisas vão melhorar. E de que adianta tantas regras ("tem que ser assim!") se nada disso preenche o vazio que em alguns momentos se faz presente?

Não são os diplomas na parede, nem os dogmas, nem o futuro que preenchem esse espaço de dentro. Disso eu já sei. E por isso, tento buscar o indecifrável que me nutre; o ninho que me acolhe e cobre a lava escura.

Vago em busca de Flor que desabroche.

De Semente que germine o peito.

Do Respiro no silêncio.

Do Sim do infinito.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

A fala encantada de Bartolomeu



Acabo de conhecer hoje, ao vivo, Bartolomeu Campos de Queirós. Sim! Ele mesmo - o autor que nos desperta a sutileza da alma - estava na Biblioteca Nacional falando sobre a literatura que "nos tira do prumo" (palavras do próprio).

Ah! Quanta fragância tem também as palavras faladas de Bartolomeu! Sua literatura me deixa do avesso por dentro e tira o prumo de qualquer um que ouse senti-la de perto.

Quando Bartolomeu começava a falar, o auditório mergulhava num silêncio profundo: ninguém queria perder o gosto arco íris de suas palavras. Confesso que fiquei perplexa em perceber que mesmo falando o autor canta poesia. Ele é como um pássaro que acorda o sol. Suas palavras e voz suave nos levam a um estado de tanta inspiração, que saímos do auditório enxergando só o encantamento do mundo.

Transcrevo aqui falas de Bartolomeu, pérolas que me embriagaram de beleza e fragilidade em mais um dia azul:

"Para desenhar há de se ter a liberdade do gesto.
Meu gesto é muito contido. Por isso escrevo. É a palavra que me encanta."

"Não gosto do explícito. Gosto do mistério. A metáfora esconde o escritor."


"Escrever também demanda liberdade. É a literatura reflexiva e de consumo interno que me tira do prumo, é essa que me encarna e é dessa que quero falar. O Brasil Literário procura esse leitor que busca poesia e beleza na palavra"

"A vida não deixa ninguém analfabeto. A leitura da escola, a do alfabeto é só mais uma leitura. Todo mundo já entra na escola sabendo ler."

"A literatura lida demanda trabalho.`As vezes, um livro desperta a dor."

"O leitor se encontra na literatura quando lê um texto que o conecta com sua fantasia mais profunda."

"O livro escuta o leitor o tempo inteiro. Ele pode tocar as nossas verdades mais profundas. Com um livro do lado, você nunca está sozinho. Não existe solidão."

"O texto só pode ser literário quando sai da linguagem do cotidiano e do lugar comum. Reduzir a arte a um destinatário, enfraquece a arte. "

"Temos que parar com essa idéia de que a educação nos deixa fortes. Quem tem educação é mais frágil. Muito frágil."

Sobre como surgiu a idéia de seu último livro "Tempo de Vôo":



"Um dia estava debruçado na janela e me deu uma saudade imensa do mundo. Me senti velho. Há um determinado momento em que o mundo fica distante de você. Eu senti na pele a saudade do mundo. E o texto [Tempo de Vôo] surgiu disso. Tem hora que dói na pele, que queima. A consciência da saudade do mundo é que cria o livro."

"É muito interessante, né? Você transforma a dor [da saudade] na alegria [de escrever]. Viver é um ato extremamente escandaloso."

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

A poética de Bartolomeu



Ontem dormi sobre palavras. Palavras poéticas de Bartolomeu Campos de Queirós. Dizem que ele escreve para crianças e jovens, mas para mim ele escreve para suavizar o gosto da vida.

Mergulho no silêncio para melhor sentir a textura de sua prosa poética. Sinto um tremor no coração a cada palavra sua exalada: a mais pura essência. As frases borboletas de Bartolomeu devem ser saboreadas, apreciadas junto ao tempo.

Através de seus livros, percebo o desabrochar da flor da manhã, decifro a música infinita do céu e desperto para a sutileza da alma.

"Para um menino, assim só, os ciganos eram uma espécie de sol que acordava os afetos (...) Ele comungava a vontade de fazer-se atraído pelos ciganos e ser roubado por eles. Ah, ser roubado era o mesmo que ser amado. Ele sentia que só roubamos o que nos faz falta. E ele - como gostaria de ser a ausência, mesmo dos ciganos..."

Trecho do livro Ciganos de Bartolomeu Campos de Queirós

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Frágil

Como é frágil o ser humano. Não conheço um que nunca tenha caído, se machucado, que não tenha sentido dor dentro do peito. Ao mesmo tempo, me surpreendo com a versatilidade e capacidade única do ser humano de se transformar, de renascer.

Tento renascer a cada vento no rosto. Não é fácil. A vida tem seus desafios... Tem certos dias que gostaria de não ter que lidar com certas emoções. Mas já aprendi que quanto mais fujo daquele sentimento, maior ele fica. Então, tento me lembrar que não sou só aquela emoção: sou um ser cheio de complexidade e beleza. A tristeza, a dor, a inquietação vai brotar cá dentro por vezes. E no entanto, como o vai e vem das ondas, tem uma hora que essa emoção escura se vai e abre lugar para sentimentos mais leves como o amor e a alegria.

As emoções são fluídas e mudam como a luz da lua. Porque então temos tanto medo de certas emoções? Medo de sentir? Sentir é fragilidade e vigor ao mesmo tempo, é o que nos arrebata e nos humaniza. Sentir pelo coracão é escolher ter uma vida cheia de nuances coloridas.

É pelo coracão que se renasce.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Desabrochar


A dor do fim de um Amor

É como a morte de um céu
Céu de nuvens
Que tece em desenhos brancos
A história dos amantes

No fim o Amor teme a solidão
Teme o vazio dos sonhos
Teme perder-se de si mesmo
E dorme encolhido,
para esquecer aquela flor

Só que flor de amor não morre nunca.
Fica dentro do peito
esperando o despertar de suas pétalas

No desabrochar da nova flor
O Amor vira claridade
Brilho tecendo as luzes do céu