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segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Choro

Eu sei. Tenho sido só choro nesses últimos tempos. Tento voltar aqui para a Alegria do Blog mas meu coração chora entrecortado pelas notícias despedaçadas. Me sinto feito papel que se desfaz na água e não sabe mais como virar inteiro de novo. Me sinto chuva inundando a mim mesma e é tanta a dor represada no peito que tudo transborda. E as lágrimas me desinundam.

Sei que todo mundo tem a sua hora de ir embora. Mas quando alguém que você ama muito tem o seu tempo reduzido é preciso resignificar a morte. Porque a que carrego em meu peito parece ser pesada demais para me adequar a esses novos ventos.


Percebo a dor nos olhos dos outros, o choro contido e escondido de cada um. A negação e a não aceitação de alguns. E sempre choro junto.

Quem sabe... Daqui a pouco viro rio.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Fim


ilustração: Irisz Agocs

Mais uma vez sinto a dor do Fim.


Tem Fim que é suave: vento cantando no rosto (esses são raros).

Fim é pausa na respiração.
É tempo de rearrumar tudo por dentro.


Tem fim que desequilibra e transborda a cachoeira dos olhos. Tem fim que tira o sono e nos revira por dentro feito maremoto. Tem fim verde-lama, cinza chuvoso e até preto desbotado.

Nem sei bem a cor desse fim...

A verdade é que só quem passa por um Fim é que sabe o tamanho do grito de dentro, a profundidade do corte no peito e quanto tempo vai precisar para pintar aquela dor com uma nova cor.

domingo, 23 de agosto de 2009

Descompasso



Meu coração frágil se despedaça com qualquer areia bruta que jogam em cima. Murcha feito tâmara seca. Seca como azeitona ao sol. Fica quebradiço, torto, vira boneco de pano passando de mão em mão.

Sei que és sensível coração, mas há de haver um jeito de não ser tanto trovão. De não ter tanta Areia fazendo algazarra, tanta Asa levantando poeira, tanta Tinta sangue sendo derramada, tanto Vento frio sendo furacão descabido dentro de ti. Há de haver uma solução para tanto não, para tanto alvoroço dolorido. Um respiro para que essa onda não te afogues; uma margem para que esse rio caudaloso não te arremesses para tão longe de si-mesmo.

Ainda há raio de sol, luz que não se esvazia, parte tua que não pode ser suprimida. Ainda há pranto que vira canto, música sua, voz sua em seu recanto. Espaço só seu, debaixo da lua, do seu tambor ritmado, onde és quente, és sua própria melodia mesmo num tum- tum descompassado.

Ilustração: Irisz Agocs

terça-feira, 30 de junho de 2009

Queridas amigas

Aqui estou, lutando para não afundar no pântano das emoções, nadando pelas águas soturnas que insistem em me rodear.
E eis que surje aquela amiga com uma palavra amor,
um gesto simples, um "não desanime".

E também tem aquela outra amiga que naquele dia de perda profunda estava comigo e ficou durante toda a tarde ao meu lado porque não queria me deixar sozinha.

E tem aquelas amigas que falam: vamos dançar! Vamor rir!
E viram crianças comigo.
Tem outras que só escutam o choro e abraçam.
Tem aquelas que são meio mães.
Outras são quase "mestras" espirituais, tamanha sabedoria.


Todas essas amigas tem um jeitinho especial de ser.
Essas palavras são para todas elas que tem trazido claridade
num momento em que parece só ter escuro...
Aconchego na solidão, na perda e na saudade.
Amor quando tudo parece árido e sem sentido.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Dor de Mãe



Depois da morte da filha, a Dor daquela Mãe é um buraco negro de
imensidão incalculável.
É tanta dor que essas palavras tornam-se bestas por tentar traduzi-la.

O que fazer com essa Dor que cobre o espaço sideral? Aonde se agarrar? Em que borda segurar para não se afundar nessa lama desesperada? Para não sucumbir a capa escura, a loucura da noite que não enxerga mais o dia? Para aliviar o soluço e o tatear monocórdio da escuridão?


Nessa hora, Mãe - em que o Sem Sentido da vida se faz presente - te dou o meu abraço, meu colo e aconchego. Seco e compartilho suas lágrimas. Te dou todo Amor possível, pois quem sabe esse Amor não te alivia por apenas um segundo?

Te ofereço o sol, dentes brancos alegres, poesia que levanta, arte que acaricia e cura. Tento assim deixar vivo aquele pontinho no seu coração que resiste, e teima em acreditar que ainda existem estrelas nesse mundo.

ilustração: Nicoletta Ceccoli

sábado, 20 de junho de 2009

Duas faces da dor

Meu cabelo escureceu e também o meu humor.
Meu coração vaga sombrio pelos cantos.
Dor de perda
Dor de dor.

Ouvi dizer outro dia que a Dor e o Amor
são apenas faces opostas da mesma moeda.

Mas então como faço para ser apenas o meio da moeda?
Aquele centro que não é nem uma face nem outra?
Como faço para viver na essência... e não nas polaridades?


Como faço para doer menos? Para não chorar tanto?
Para sentir sem tanta intensidade.


Bálsamo de margaridas brancas talvez?
Banho de rio gelado? Canto de beija-flor açucarado?
Não sei bem...

No momento, estou quietinha,
tentando escutar tudo o que está dentro.`
As vezes ouço um alvoroço completo, um bater de asas ansiosas.
Outras vezes ouço só o Silêncio.

No Silêncio, por alguns minutos, é possível me sentir melhor.
Sinto um calor quente e aconchegante que vem de dentro.
Lava que vai cobrindo vagarosamente as feridas que sangram...
Quem sabe elas param logo de sangrar?
Algumas saram rápido, outras duram mais que uma vida.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Término



Quando um relacionamento acaba o sentir chora chora chora...
E quase se afoga.

No início queríamos descobrir os mistérios do outro, entre vales e montes de dizeres e mãos. Corríamos soltos como num filme feliz e dançávamos a valsa viennense.

Mas veio o outono de folhas amarelas. E a cada folha que caía o nosso olhar se perdia. Não tínhamos mais a mesma direção, o mesmo gosto do encontro, dos beijos, da emoção compartilhada.

E eu me perguntava: mas não era até o fim da vida? Não era você o escolhido? E como viver sem o roçar da barba, o entrelace de mãos e o pulsar dos sentidos?

Já não sou mais quem eu era.
Sinto meu coração esvaziado, sem ar, ofegante.
Quase me afogo nas águas desse rio partido.

Até que vem o luar quente da noite
e passo a enxergar no espelho da minha alma,
lá no fundo empoeirado -- você.
E me sinto renascer, pronta para a serenata do agora.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

O Medo da Perda



A tristeza corta o coração, rouca.
Sem saber quem fica ou quem vai

Mãezinha do céu,
como pode vida e morte
dentro de um ventre?

O temor da perda enrijece.

Mas o calor de quem ama
derrete o peito gélido, já sem cor.
Traz rubor e esperança
de uma saída,
de um vôo leve como gaivota