domingo, 20 de dezembro de 2009

Pontos


Tarde


Na folha
o sol seca

o choro da manhã
---------------------

Solidão

Solidão escorre da noite
E veste meus olhos
de saudade
---------------------

Solidão II

Solidão de Lagarta
Faz a Borboleta
----------------------

Véu


Véu que faz chorar
Faz nascer a lua
--------------------

Ponto

Ponto no céu vaga-lume
Quero senti-lo cá dentro
--------------------------

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Lava

Tem dias que chove aqui dentro. São gotas de lava escura que viram meu olhos do avesso e me fazem olhar para dentro. A lava lava tudo... E depois traz o vai e vem das ondas. E onda do mar nunca é igual a outra. É como sorriso de lua.

Quando mais nova tinha tudo planejado (até o final da vida! Ha ha ha!). Uma parte minha ainda acreditava em certos clichês: se tiver vários títulos terei sucesso na vida; só tenho valor através do trabalho; quando conseguir mais dinheiro estarei melhor; no futuro e sempre no futuro as coisas vão melhorar. E de que adianta tantas regras ("tem que ser assim!") se nada disso preenche o vazio que em alguns momentos se faz presente?

Não são os diplomas na parede, nem os dogmas, nem o futuro que preenchem esse espaço de dentro. Disso eu já sei. E por isso, tento buscar o indecifrável que me nutre; o ninho que me acolhe e cobre a lava escura.

Vago em busca de Flor que desabroche.

De Semente que germine o peito.

Do Respiro no silêncio.

Do Sim do infinito.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

A fala encantada de Bartolomeu



Acabo de conhecer hoje, ao vivo, Bartolomeu Campos de Queirós. Sim! Ele mesmo - o autor que nos desperta a sutileza da alma - estava na Biblioteca Nacional falando sobre a literatura que "nos tira do prumo" (palavras do próprio).

Ah! Quanta fragância tem também as palavras faladas de Bartolomeu! Sua literatura me deixa do avesso por dentro e tira o prumo de qualquer um que ouse senti-la de perto.

Quando Bartolomeu começava a falar, o auditório mergulhava num silêncio profundo: ninguém queria perder o gosto arco íris de suas palavras. Confesso que fiquei perplexa em perceber que mesmo falando o autor canta poesia. Ele é como um pássaro que acorda o sol. Suas palavras e voz suave nos levam a um estado de tanta inspiração, que saímos do auditório enxergando só o encantamento do mundo.

Transcrevo aqui falas de Bartolomeu, pérolas que me embriagaram de beleza e fragilidade em mais um dia azul:

"Para desenhar há de se ter a liberdade do gesto.
Meu gesto é muito contido. Por isso escrevo. É a palavra que me encanta."

"Não gosto do explícito. Gosto do mistério. A metáfora esconde o escritor."


"Escrever também demanda liberdade. É a literatura reflexiva e de consumo interno que me tira do prumo, é essa que me encarna e é dessa que quero falar. O Brasil Literário procura esse leitor que busca poesia e beleza na palavra"

"A vida não deixa ninguém analfabeto. A leitura da escola, a do alfabeto é só mais uma leitura. Todo mundo já entra na escola sabendo ler."

"A literatura lida demanda trabalho.`As vezes, um livro desperta a dor."

"O leitor se encontra na literatura quando lê um texto que o conecta com sua fantasia mais profunda."

"O livro escuta o leitor o tempo inteiro. Ele pode tocar as nossas verdades mais profundas. Com um livro do lado, você nunca está sozinho. Não existe solidão."

"O texto só pode ser literário quando sai da linguagem do cotidiano e do lugar comum. Reduzir a arte a um destinatário, enfraquece a arte. "

"Temos que parar com essa idéia de que a educação nos deixa fortes. Quem tem educação é mais frágil. Muito frágil."

Sobre como surgiu a idéia de seu último livro "Tempo de Vôo":



"Um dia estava debruçado na janela e me deu uma saudade imensa do mundo. Me senti velho. Há um determinado momento em que o mundo fica distante de você. Eu senti na pele a saudade do mundo. E o texto [Tempo de Vôo] surgiu disso. Tem hora que dói na pele, que queima. A consciência da saudade do mundo é que cria o livro."

"É muito interessante, né? Você transforma a dor [da saudade] na alegria [de escrever]. Viver é um ato extremamente escandaloso."

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

A poética de Bartolomeu



Ontem dormi sobre palavras. Palavras poéticas de Bartolomeu Campos de Queirós. Dizem que ele escreve para crianças e jovens, mas para mim ele escreve para suavizar o gosto da vida.

Mergulho no silêncio para melhor sentir a textura de sua prosa poética. Sinto um tremor no coração a cada palavra sua exalada: a mais pura essência. As frases borboletas de Bartolomeu devem ser saboreadas, apreciadas junto ao tempo.

Através de seus livros, percebo o desabrochar da flor da manhã, decifro a música infinita do céu e desperto para a sutileza da alma.

"Para um menino, assim só, os ciganos eram uma espécie de sol que acordava os afetos (...) Ele comungava a vontade de fazer-se atraído pelos ciganos e ser roubado por eles. Ah, ser roubado era o mesmo que ser amado. Ele sentia que só roubamos o que nos faz falta. E ele - como gostaria de ser a ausência, mesmo dos ciganos..."

Trecho do livro Ciganos de Bartolomeu Campos de Queirós

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Frágil

Como é frágil o ser humano. Não conheço um que nunca tenha caído, se machucado, que não tenha sentido dor dentro do peito. Ao mesmo tempo, me surpreendo com a versatilidade e capacidade única do ser humano de se transformar, de renascer.

Tento renascer a cada vento no rosto. Não é fácil. A vida tem seus desafios... Tem certos dias que gostaria de não ter que lidar com certas emoções. Mas já aprendi que quanto mais fujo daquele sentimento, maior ele fica. Então, tento me lembrar que não sou só aquela emoção: sou um ser cheio de complexidade e beleza. A tristeza, a dor, a inquietação vai brotar cá dentro por vezes. E no entanto, como o vai e vem das ondas, tem uma hora que essa emoção escura se vai e abre lugar para sentimentos mais leves como o amor e a alegria.

As emoções são fluídas e mudam como a luz da lua. Porque então temos tanto medo de certas emoções? Medo de sentir? Sentir é fragilidade e vigor ao mesmo tempo, é o que nos arrebata e nos humaniza. Sentir pelo coracão é escolher ter uma vida cheia de nuances coloridas.

É pelo coracão que se renasce.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Desabrochar


A dor do fim de um Amor

É como a morte de um céu
Céu de nuvens
Que tece em desenhos brancos
A história dos amantes

No fim o Amor teme a solidão
Teme o vazio dos sonhos
Teme perder-se de si mesmo
E dorme encolhido,
para esquecer aquela flor

Só que flor de amor não morre nunca.
Fica dentro do peito
esperando o despertar de suas pétalas

No desabrochar da nova flor
O Amor vira claridade
Brilho tecendo as luzes do céu

terça-feira, 27 de outubro de 2009

A Estrela de Ana


Ana andava cansada das brigas com a mãe. Ela buscava a sua própria estrela e não qualquer luz de poste feito mariposa cega. Mas a mãe não aceitava: queria a segurança da filha. E aqueles sonhos eram muito incertos.


Ana queria seguir o seu coração e não o que outros achavam que era o melhor para ela. E ela, por vezes, se perdia com as luzes ilusórias do caminho, pois eram muitas distrações que a desviavam de sua estrela.

A mãe insistia que Ana entrasse no formato quadrado e padrão do que é considerado certo, pois isso era o seguro, o aceito pela sociedade.
Ela tentava explicar para mãe que deixando de lado seus sonhos, viraria folha seca, endurecida pelo tempo da vida. Mas a mãe não a compreendia e assim as duas eram como dois olhos que não mais se viam.

Ana era pássaro selvagem e morreria se fosse engaiolada. Ana queria fazer arte e ser a própria arte. Ela curava a si e ao mundo. Talvez tivesse que desvendar montanhas e quebrar suas asas durante esse caminho. Não se importava. Era nesse caminhar - de encontrar a estrela de dentro - que sentia-se plena.


sexta-feira, 23 de outubro de 2009

A Flor do Amor



É assim que começa o Amor a dois: como uma sementinha frágil, incerta sobre seu destino na terra nova. Um dia quando vê o amor se fez flor; flor daquelas de tirar o ar do peito, de fazer os pêlos da nuca arrepiarem, de fazer o corpo flutuar etéreo a cada perfume da flor amada.


Cada amor tem sua flor. E cada flor tem sua cor. Alguns acreditam que quando o amor já é flor, não precisa mais regá-lo. Só que o amor é flor delicada. Há de se acariciar todos os dias, pois qualquer vento sul faz cair suas pétalas, qualquer sol desmedido tira seu vigor.

O amor precisa ser acolhido, abraçado. Até que dessa flor nasça muitas outras, transformando esse amor em campo florido de pássaros tecendo o céu. Ainda assim, cada flor precisa dos gestos doces que fazem nascer seu sorriso, das gotas chuva que nutrem seu chão e
do canto contínuo de amor que dá brilho a sua alma .

domingo, 18 de outubro de 2009

Coração

O coração quer se expressar. Ele grita por vezes, pois não quer ficar calado, esmorecido pelos cantos... Esse coração canta para o tempo, gargalha entre rios, dorme na chuva verde.

Teve um tempo em que ele não se expressava, por medo dos outros; de ser motivo de riso; de sangrar. E então seu tum-tum foi ficando fraco, esbranquiçado. Virou um fantasma vagando pelas sombras. Um dia - quase morto - decidiu renascer.

Percebeu a loucura que era viver só para o coração do outro e não para si próprio. Pouco a pouco ele foi descobrindo o seu ritmo: tum- tum, tum- tum... E ainda hoje o coração descobre seu compasso e se aproxima cada vez mais de si mesmo. Esse coração sabe que só ele mesmo pode preencher seu vazio, suas angústias, iluminar a sua sombra. É ele que sente, que pulsa, que ama.

Perto dele, a vida se faz perfume doce, as cores tocam melodias vibrantes e as asas rutilam a cada suspiro.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Personagem



É engraçado... ao escrever um roteiro vou aos poucos descobrindo o personagem, percebendo suas fragilidades, seus segredos. E no entanto, por vezes me surpreendo ao perceber que é o personagem que me descobre e desvenda meus mistérios.

Sonho Real

Amor, antes de te conhecer buscava sonhos longínquos, terras onduladas, horizonte que não se vê. Mas com você descubro que o mundo cotidiano - que um dia desprezei - é meu sonho real.

Pois é aqui, no mundo real que acordo rindo feito lua ao te ver acordando amarrotado, ao sentir seu cheiro de mar, sua pele suave me acariciando. Sinto sua respiração perto de mim e me faço sol irradiando céu. Gosto do seu gosto de estrela, das conversas a fio, dos suspiros sincopados, do balanço na rede, da nossa dança desengonçada onde só a gente se encontra.

Para você, canto todos os meus sonhos lírios e você retribui com suas flores amanteigadas. Sua voz é melodia. Seu sorriso claridade. Seu beijo quentura, vida que me desperta por dentro.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Amor Brasileiro

Uma pessoa querida me disse:

"Na França se fala de amor,
aqui se vive o amor."


E Voilá!
Viva o Amor

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Fantasia

Nesse mundo fantasia me encontro.
Por favor me deixe por lá...

Lá sou marinheiro errante
Riso encantado no ar
Sou verde que não se cansa
Cantar que não seca

Me leve em tuas jangadas
com cheiro solto de mar
Quero viver nesse encanto de ondas:
lugar melhor não há.

Pois lá sou mulher de milagres
De estórias que nascem e voam

Lá nasço menina
E morro estrela.
Viro
dança bailarina,
Música de anjo prata,
Olhar que pisca para dentro
E brinca de sonhar

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Sorriso

Joana levava a vida a sério demais. Tudo parecia arrastado, tinha o peso de um elefante preto. Um dia uma flor lhe ensinou a rir. No início, aprendeu a rir de soslaio, sorria só pelos cantos da boca, cantos de um mundo escondido. Teve uma noite que sorriu até a barriga e aí não teve jeito... Veio o bom humor, a brincadeira, assim mesmo a luz de todos e mesmo com vergonha ela gargalhava, se afogava de tanto rir.

A vida de Joana passou a ser vento, riso pleno. Ela percebeu que não queria mais esquecer sua criança de dentro. A brincadeira, pensou ela, é a essência do sorriso. O alento para os desafios daqui; a alegria do alto mar.

Gaivota





Nado, nado em um mar sem fim
Por vezes me perco nessa imensidão verde-água

Já a gaivota não.


A gaivota é certeira: mergulha feito espada em onda agitada
Gaivota corta o mar de ressaca atrás do que quer
Quando vem rajada de vento,
não luta contra
nem bate asas
simplesmente plaina,
vira equilibrista no ar.

Tente olhar a gaivota...

Ela mergulha profundo na água das emoções
Mas não fica por lá.
Não se afunda, nem se perde
Gaivota mergulha
E volta a voar
Leve como canção de ninar
Branca como luz de luar
Livre feito onda do mar

Quero ser gaivota: no ontem, no hoje, no que ainda não há.

Fotos: Jim Skea

sábado, 19 de setembro de 2009

Resgate das partes perdidas



Na separação, temos a sensação de ter deixado várias partes nossas com aquela outra pessoa. Acreditamos que ela se foi e com ela também o amor, a alegria, o calor daqueles momentos. A sensação é de que nunca mais vamos sentir aquilo tudo novamente simplesmente porque aquela pessoa já não está mais do nosso lado.


Eu tento me lembrar, nesses momentos da ida do outro, quando o coração choroso anda tocando melodias escurecidas, de que o Amor que senti por essa pessoa é meu. E se é meu, fica dentro do meu peito. Também a alegria, o calor e todos os sentimentos vividos na relação bateram dentro do meu peito, foram sentidos por esse coração daqui, que chamo de meu.

Pensando desse jeito, vou resgatando cada um desses sentimentos perdidos, como fios lunares que vão preenchendo meu peito murcho com as minhas próprias emoções resgatadas. A cada parte recuperada - que por um tempo achei estarem perdidas no mar do outro - o vazio vai sendo preenchido e o peito passa inflar com as emoções que voltam, uma a uma, para casa.

Viro então balão colorido, pleno, pronto para voar mais uma vez pelas frestas desconhecidas de um relacionamento a dois.


Ilustração: Irisz Agocs

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Bicho do Mato

Sou bicho solto, livre
Sou bicho do mato.
Gosto dos pés na terra densa
Dos pés na areia sono

Do vento arisco que cavalga sem medo
entre meus fios brancos
Do sol que abrasa minha pele
Do mar refletindo meus olhos
Das ondas me fluindo em vai e vem

Quero voar alto feito canário amarelo
Quero ser sonho sem fim nem começo
Quero liberdade infinda
Voz sem tamanho
Quero ser estrela insondável
Brilhando na escuridão do tempo

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Tanto

Entre encontros e desencontros
Vou me encontrando.
Ontem, no sorriso diurno
Hoje, em lágrimas silenciosas.

É tanto tear aqui dentro
que já nem sei quem eu era.
Me perco nesse Universo interno
vasto, fosco, nebuloso.

É Tanto redemoinho
que me toca
Tanta emoção
que transborda
Tanto sentir entrelaçado

TantoTantoTanto...

Que viro flor lânguida

derretida pelo
Sol do Amanhã

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Tom e Vinícius - o Musical



O musical "Tom e Vinícius" eleva a alma.
Saí de lá cantarolando, praticamente voando.

O espetáculo apresenta, entre as músicas desses mestres, momentos pincelados da vida de Tom Jobim e Vinícius de Moraes. Fala da amizade única entre esses dois poetas, músicos e virtuoses que amaram intensamente, mas que também tiveram seus momentos de crise, de separação, de tristeza. E no entanto era a partir de cada momento desses - cinza ou cheio de cor - que eles criavam as suas poesias, as suas próprias notas, o jeito, só deles, de se expressar.

Eu ri, chorei, cantei, me emocionei e senti profundamente ao ver partes da vida desses dois artistas - sem igual - sendo representada diante de mim, com suas músicas belíssimas e por vezes melancólicas. Através de momentos específicos da vida de cada um deles, eu me reconhecia, me enxergava e por isso sentia junto, amava junto.

Percebi então que quero viver a minha vida como Vinícius, amando intensamente e poetizando infinitamente. E como Tom Jobim, expressando minhas palavras com ternura, com alma em "Tom" Maior e compondo as mais belas melodias.


* E sobre Tom Jobim devo dizer que compôs as canções mais belas que já ouvi ( Salve o Cd Urubu!)

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Envelhecer




Na minha imaginação de menina achava que quanto mais velha ficasse, mais simples seriam as questões ou os porquês. Seria a influência dos contos de fada?

Eis que me surpreendo ao ver agora que, muitas vezes, quanto mais velhos ficamos mais pesada fica a carga emocional, maior é a mochila nas costas. Mais um término, mais uma dor, mais um sofrimento para dentro da caixa preta das emoções. Aquelas emoções que não queremos fazer contato.

Olho as caras sérias no metrô, depois de um dia de trabalho, e quase não vejo sorriso ou bem estar. A tensão, preocupação e o disco mental arranhado predomina na maioria dos rostos. E assim parece que vamos virando uma colcha de retalhos, cada vez mais gasta, sem cor, sem vida. Cadê a vida que estava aqui? Sumiu!

Como faço para envelhecer na leveza, sem tanto pesar? Sem negar que o sofrer existe, mas simplesmente me conectando com aqueles sentimentos mais elevados mesmo nas horas mais áridas?

Me recuso a deixar que essa minha colcha de retalhos desbote de vez! Posso ter que remendar um buraco aqui e outro ali, mas prefiro antes me queimar com essas cores ferventes, avermelhadas, intensas dos meus retalhos de agora do que ir seguindo anêmica, sentindo só pela metade - por puro medo e dores acumuladas - sendo só a metade amarelada de uma vida prisma que pode ser arco-íris multifacetado.

Eu escolho o arco-íris.


ilustracão: Irizs Agocs

Espelho

Sinto os pedaços de espelho - uns quebrados, outros redondos, diversas formas parafuso - que sereiam (como sereia!) dentro de mim. Vejo-me refletida nos outros ou seria eu reflexo dos outros? Reflexo escuro, difuso por vezes. Outras vezes enxergo meu próprio brilho no sorriso borbulhante do outro. Mas quando o outro vem com suas partes rachadas sinto falta dessa parte que também falta dentro de mim. Então, dói cá dentro e muitas vezes não quero ver esse outro em pedaços porque não quero sentir o vazio daqui.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Luiza - "Home Sweet Home"


Para Luiza

Minha linda Luiza, fico feliz em ver-te finalmente - depois de tanta espera cinza - nessa casa sua, ninho tão esperado de Amor. Entre a manta rosa quentinha, colinho de mamãe, risos de papai e carinho da Vovó coruja.

Que linda margarida tênue és tu, pegando o solzinho da tarde que bate da janela!
Meu coração palpita quando ouço o seu chorinho e lembro que agora já está no aconchego, na paz vibrante de sua conchinha familiar.

Essa sua titia se emociona ao te ver- mesmo de longe - e queria como pássaro esfuziante estar aí do seu ladinho. Te dando beijinhos pipocantes e cheirinhos cativantes. Luluca, beija-flor, bem vinda ao nosso Mundo amada flor.

ilustração: Irisz Agocs

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Noite

Hoje fez-se Noite em minha Alma.
Simplesmente Noite.

domingo, 23 de agosto de 2009

Descompasso



Meu coração frágil se despedaça com qualquer areia bruta que jogam em cima. Murcha feito tâmara seca. Seca como azeitona ao sol. Fica quebradiço, torto, vira boneco de pano passando de mão em mão.

Sei que és sensível coração, mas há de haver um jeito de não ser tanto trovão. De não ter tanta Areia fazendo algazarra, tanta Asa levantando poeira, tanta Tinta sangue sendo derramada, tanto Vento frio sendo furacão descabido dentro de ti. Há de haver uma solução para tanto não, para tanto alvoroço dolorido. Um respiro para que essa onda não te afogues; uma margem para que esse rio caudaloso não te arremesses para tão longe de si-mesmo.

Ainda há raio de sol, luz que não se esvazia, parte tua que não pode ser suprimida. Ainda há pranto que vira canto, música sua, voz sua em seu recanto. Espaço só seu, debaixo da lua, do seu tambor ritmado, onde és quente, és sua própria melodia mesmo num tum- tum descompassado.

Ilustração: Irisz Agocs

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Mãe


Para minha mãe, que hoje completa mais um ano pertinho de mim

Só agora pareço começar a apreender o que é ser Mãe.

Sim, porque quem disse que é possível compreender
o que é ser Mãe em poucas palavras roucas?

Para mim Mãe é cobertor que aquece,
envolve e protege o filho.
Manta de luz quente
que ama feito estrela infinita,

mas sente a dor do filho
quando esse chora,

cai um pouco por dentro
quando ele cai,

para depois pegá-lo firme no abraço
e
mostrar-lhe a vida como novo tear.

Mãe é novelo de lã que aquece
É lua que acolhe no olhar
Mãe é canção de ninar
É puro sorriso quando
vê o canto branco do filho.

Mãe que vê filho ferido,
vira leoa furiosa,
espinho de rosa
pronta para saltar.

Mãe se entrega feito flores do campo,
Se perde como feixes de luz,
Se reencontra como margarida,
e nunca desiste de salvar os filhos
com harpa angelical e sorvete de avelã
Afinal, diz ela: sempre há o amanhã!

Mãe é "Amor de Mãe" que só as mães entendem.

Mãe é contradição de sentimentos
pulsar de amor desmedido
coração palpitante que vibra,
crescendo junto com cada nova pétala do filho.

Ilustração: Irisz Agocs

sábado, 15 de agosto de 2009

Sobre Amar

Para Tomás e Natasha,

Uma vez uma pessoa muito próxima a mim, que passava por uma provação de vida altamente dolorosa e desafiadora, olhou para o seu companheiro e marido que estava ali ao seu lado, abraçando a sua mão, diante de um hospital cinza e choroso e disse:

- Amor, eu te amo tanto que dói...dói o coração.

E com uma lágrima, aprendi que Amar pode ser assim:
tão infinito que dói.

Fotografei aquele momento na Alma
e desde então nunca mais fui a mesma.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Sonho Prata


É tanto espinho...

Mais uma vez meu corpo físico esmorece, tamanha briga aqui dentro. O coração sente-se mais do que pronto para viver seu Sonho Prata, pronto para fazer-se preenchido.

Mas partes minhas - cá dentro - resistem tal felicidade como soldados de chumbo. São resistências medrosas que cismam em me proteger. Pois tem medo da perda; da dor; da queda; da falta do que foi; da ausência do que não foi; da separação constante; de ser frágil e quebrar; do despir-se em silêncio; e principalmente da entrega espontânea.


E assim faz-se a guerra. Meu corpo se cansa de tanta discussão - afinal cada parte tem a sua razão - e segue perdendo seu vigor, sua tez, seu brilho espelhado.

Nesse tear quebradiço é preciso cantar. Cantar para a estrela, pedindo
emprestado seu brilho cândido até que eu recupere esse meu. Também peço emprestado em tal canto o sorriso dessa lua fio, o queimar desse Sol alumínio e o bater de asas dessa flor, até que os possa encontrar novamente em meus próprios encantos.

Sem prantos, nem enganos. No meu próprio canto.


ilustração: Irisz Agocs

O Amor...

O Amor veio ligeiro...
Suave feito seda delicada
acariciando a pele fina.

Aos poucos me enredou com seus trejeitos,
me encheu de enfeites doces (sucre!)
me encantou com seus encantos.

E o melhor foi o presente:
bisous`a la francesa!

Alma selvagem e arredia
é essa tua.
És alma da terra,
fogo incessante voando
entre cavalos alados

Alma que chega cuidadosa,
cheia de prumo e beleza.
Tu vens como brisa quente

e me aquece em abraços sutis.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Botão de Rosa


Para minha sobrinha, Luiza

Luluca,

És como botão de rosa que luta para crescer formosa. Cada chorinho dengoso seu - assim do seu jeitinho- cada mamada leite-mãe bem aceita faz esses corações nossos palpitar de emoção. Nossos olhos brilham feito vaga-lume na escuridão com cada nova nota que você nos traz. Queremos mesmo ouvir seu cantar passarinho alegre, longe de anseios e fios vagarosos que te enroscam.

Meu peito por vezes se entristece por vê-la ainda dentro do que eu acho ser uma bolha transparente de emaranhados incertos.

Mas que boba essa minha tia! Não vê que eu, Luluca, sou agora passarinho engaiolado que colore suas virtudes para logo poder voar?

E quero lhe informar titia que vocês adultos vêem tudo trocado. Pois isso aqui é Castelo Encantado de Cristal, cheio de luzes coloridas que me acolhem, me afagam e me beijam. Aqui, no meu Ninho Cristal aprendi que sou coragem, sou amor, sou pássaro descobrindo seu cantar.


Não tenha pressa minha titia, pois lembro a ti que já sou flor.
Daqui a pouquinho... logo logo
Viro beija-flor.


Foto: Manoel Bueno

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Sobre a Poesia dos Blogs

Que bela surpresa é esse mundo Daqui; cheio de poetas, palavras espiraladas, artistas de diversas notas, música arco-íris que dança sob meus olhares, fazendo voar alto meus pensamentos, emocionando até as mais insensíveis flores despetaladas.

Varo a madrugada anêmica lendo sonhos líricos, palavras encantadas e gosto doce de ninar. Me inspiro e me regozijo na poesia de tantos outros. Como uma onda tênue, a poética me engole, me deixando tonta, aérea. Abraço-me na ternura das palavras bailarinas, leves feito pena de pássaro solto. Sinto a beleza que delas provém, o cheiro ocre suave. Através delas, nasce dentro de mim sentimento cabreiro, que pulsa e quer sair livre, selvagem, puro lírio solto no jardim das expressões.

Dona Tristeza



Apesar de ser um espaço de Alegria, tem vezes que a Tristeza chega assim mesmo, sem ser convidada. Entra, senta na poltrona da sala e ainda fuma cachimbo com ar de sabe tudo. Dessa última vez que apareceu não entendi nem bem porque veio. Tentei conversar com ela:

- Ô dona Tristeza, aqui não tem mais espaço para a Senhora não.


Mas ela não quis nem saber:


- Querida, também faço parte desse trem da vida. Por acaso você já viu vida sem chuva, tons escuros e trovão? Daqui você não me tira não.


- Certo. Mas eu prefiro pintar esse meu quadro de tons claros açucarados e esse seu tom sombrio musgo está brigando com a minhas cores brancas.


- Acontece que para formar esse branco assim tão Branco que você quer, vai precisar da minha cor também. E também das cores escuras dessas outras emoções aqui ó: FIUUUUU
!!!

Não é que a Danada assoviu? E com o assovio lá vieram as outras emoções: a Dona Raiva, a Senhorita Ansiedade, o Senhor Inseguro e o Célebre Medo. Meu Deus! Até a Madame Auto Estima Baixa chegou desfilando. Mas a pior de todas, que veio até de salto alto e pernas de fora, foi a Senhora Solidão.

- Ah não! Não sei se agüento essa Solidão.


Foi quando a Coragem (essa eu carrego no bolso) me puxou de lado e cochichou:


- É só juntar tudo no caldeirão.


E foi isso mesmo que fiz. Joguei todo mundo no caldeirão borbulhante das emoções e adicionei também Aquelas emoções que tanto gosto: Senhorita Alegria, Senhorio Coragem, Dona Calma, Senhor Auto-Valor, Madame Ventania e é claro, o tempero final: o elegante Senhor Amor.

Não é que a Dona Tristeza tava certa? Com esse ingrediente final, aquela pitada de Amor -`a la Mineira - a massa do caldeirão ficou mais Alva que o nome Clara. Dessa massa saborosa, fiz esse bolo que ofereço a vocês agora. A cereja do bolo fica por conta de vocês: será a sua Senhora Emoção favorita.

Ilustracão: Irisz Agocs

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Borboleteando



Voltei mais uma vez daquele lugar onde se canta para o Sol. E confesso que a cura dessa vez foi um tanto dolorosa. Doía os ossos, pernas, pés, estômago tudo ao mesmo tempo em uma tempestade sem fim. Eu era pura maremoto. Queria fugir dali. A minha inconsciência tentava resistir Aquela claridade que teimava em chacoalhar o pântano interno.


Lutei e relutei contra mim mesma, mas no final cedi aos cantos, desencantos e mantos de uma tenda do suor mágica, de um fogo sagrado que me fez cinzas e de uma roda de cura que me deu aDeus ou será que foi aDeusa do Fogo?

Cheguei lá, naquela montanha, largarta... e mais uma vez volto Borboleta. E agora borboleteio por aqui, por esse espaço, ainda inebriada de amor. Amor cristal que não se explica em palavras nem borboleteios, mas se vive.

E quem disse que não dói virar borboleta?
Tem vezes que o amor é TANTO que dói.

Ilustração: Nicoletta Ceccoli

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Receita de Hoje



Queria inflar o mundo de amor e estourar feito bola colorida, espalhando assim a seguinte receita para qualquer momento de crise, chuva ou tristeza:

gotículas de amor ao leite de moça

brigadeiro açucarado linguarudo
doce de leite que escorre na boca e lambuza
goiabada derretida com queijinhos travessos
quindim barrigudo, balas multi divertidas, pirulito encaracolado

saia rodada de menina saltitante
blusa sorvete de menino descabelado
tranças com fitas no cabelo
amarelinha gripada
pique esconde que acha
gato mia que encontra
pique pega que abraça.

Brincadeira, Doçura e Risada de Criança
que expressa, contagia e ilumina.


ilustração: Irisz Agocs

A Luz de Dentro



Quando está doendo muito dentro a minha primeira reação é querer fugir. Mas como se foge de dentro de si-mesma? Ou então... tento enfiar a cabeça na terra como avestruz.

Quando percebo que nada disso levou aquela dor embora, cavo um buraquinho dentro de mim atrás da Luz. Sim! Aquela Luz que todos os Grandes Mestres iluminados falam (repetidamente) que só se acha no Universo interno de cada um.


Confesso que tentei diversas vezes sem sucesso. Mas outro dia, assim sem mais nem menos, eis que ela vem ao meu encontro: a tão procurada Luz. Estava lendo o livro "O Poder do Agora" de Eckhart Tolle em um café, quando ao ler uma frase específica do livro me senti entrando em um novo estado de Consciência. Mas não foi um processo mental ou algo como uma idéia nova na cabeça. Foi um sentimendo profundo que me preencheu de calor (e que calor!), serenidade e amor. Me perdi naquele Sol interno por algumas horas- o Sol que muitos chamam de Ser ou Luz interior- e nessas horas me senti completamente viva e plena. Estava em total paz e queria gritar, dividir com o Mundo todo aquele Amor e Acolhimento que descobri dentro de mim.

No dia seguinte ainda estava inebriada pela aquela força de dentro que acabara de acessar, mas fiquei com medo de nunca mais encontrar aquela Luz de novo. No entanto, para o meu alívio descobri que depois que você encontra essa Luz de Dentro ela nunca mais te deixa. Na verdade ela nunca nos deixa. É a gente que A esquece nos baús empoeirados da vida.

Agora, quando a escuridão se aproxima e está tudo pesado demais no mundo de fora, eis que pulo para o meu buraco de Luz e transformo a Noite em Dia.


sábado, 18 de julho de 2009

Imagem

Eu cresci em um mundo de imagens. Quando mais nova ficava a dúvida se o que importava era Aquela determinada Imagem Externa, a Aparência, olhos, cabelos esvoçantes.... ou o meu mundo interno.

Aos poucos, com cada tropeço e uva farta da vida, fui percebendo que de nada adiantava o Sol daqui de FORA quando aqui DENTRO estava cor de nuvem tempestiva. Quando está escuro dentro não há gota de orvalho ou passarinho cantante que se salve. Chove dentro, suja e embaça o vidro do olhar que enxerga tudo lá fora.

Quando estou assim, viro os olhos- feito faróis- para dentro e encaro mesmo o que é que está acontecendo no redemoinho de emoções. Até porque já percebi que ao olhar aquele sentimento torto - aquele mesmo que não queremos sentir- ele se dissolve mais rápido feito aquarela na a água morna e vai ficando fraco... até virar Ar rarefeito.

E assim abre-se espaço para o Sol de Dentro brilhar fazendo tudo lá fora reluzir e virar gaivota solta no céu, mesmo na garoa.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Praia de Ipanema



É o sol beijando o meu rosto,
o mar azul vibrante, revolto e insaciável,
o céu límpido e fresco.

A bolas voam e dançam no ar quase em câmera lenta.
Ouço a música dos vendedores,
sinto a sensualidade de corpos quase nus que se esbarram,
o sal que cola na pele.
Borboletas amarelas insistem em aparecer
e se exibem esvoaçantes em um ballet sutil.
É uma mistura de sensações.
E quanta alegria de simplesmente estar.

Idéias

Vou montar um estande
lá na rua da Alfândega dizendo:
Vendo idéias!
Então, quando der Aquele Branco
Ou quando você já estiver cansado
das suas
idéias cinzas, já rígidas e mofadas
é só ir lá comprar uma idéia nova.

Hum... Mas qual era a minha idéia mesmo?

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Jabuticabeira - parte 2



Tem um passarinho de barriga amarela e gordinha que descobriu os prazeres da jabuticabeira da minha varanda. E todo dia ele vem desfrutar das rechonchudas jabuticabas dessa sorridente árvore.

Outro dia uma amiga me perguntou intrigada: como é que esta árvore travessa pode dar jabuticabas assim aos montes durante o ano inteiro? Pois não era para ela "dar" jabuticabas apenas uma vez ao ano ou na estação certa?

E foi então que a jabuticabeira me susurrou ao vento que antes de vir para cá ninguém usufruía da beleza de seus frutos. Ela sentia-se um tanto rejeitada e desperdiçada. Afinal tinha aquele talento inato de brotar frutas maravilhosas e trazer sua alegria ao mundo, mas ninguém parecia lhe dar muita importância.

Porém, agora, eu e o passarinho barrigudinho fazíamos dela uma jabuticabeira plena, que tem prazer em ser alimento para a nossa alma e doce fruta em nossas vidas.

Afinal, disse ela, a doçura abranda os momentos amargos e faz brotar suave o que há de mais verdadeiro dentro da gente.


Sobre histórias

Uma frase que ouvi outro dia:
"A estória deve ser um afeto."

E o que é a vida senão uma série de histórias
com afeto ou sem afeto?

Sobre Forró



Quem me conhece sabe o quanto eu amo o Samba.
Tanto o samba no pé quanto o elegante samba de gafieira.

Apesar disso, me declaro aqui ao forró.O forró pode parecer simples aos olhares desapercebidos e talvez ele seja mesmo. Talvez seja essa simplicidade que o faz ser tão delicioso de dançar.

O forró é visceral, é suor misturado com sensualidade,
giros rápidos e melindrosos que nos tiram do chão.
Dançar forró é sentir o outro, misturar-se na pele,
nos cheiros, na onda rítmica da música
e se deixar levar pelo rebolado dos quadris,
o queimar dos pés e os rodopios delirantes.

É o calor que sobe pelas pernas e invade todo o corpo.
É o êxtase do momento, onde a mente pára de pensar,
só para sentir a brincadeira dos passos,
A arte do momento.

Casamento(s) na Aldeia do Sol



Os casamentos que presenciei na Aldeia do Sol foram de rara e extrema beleza. E essa beleza não veio da "pompa", brilhos e paetês ou qualquer coisa parecida. A beleza veio do mais puro Amor, que exalava feito pétalas de rosas, dos gestos e carícias dos noivos. Era difícil não ser tocado pela magia do momento, pelo amor profundo que envolvia a todos e o êxtase absoluto da troca profunda e verdadeira.

Lá o Amor se fez presente como cachoeira prateada, guirlanda de flores nos cabelos das mulheres, choro e riso eclodindo juntos, cantando alto a felicidade de Casar-se. De fazer de dois = um.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Quando o avião chega em Terra Brasilis...



Depois de longas horas no avião que vem de fora, ele finalmente pousa no Brasil. E toda vez que esse avião pousa por aqui, sinto-me sendo abraçada (mais uma vez!) por essa terra minha, colorida, cheia de sol e calor (em todos os sentidos). É como se uma onda de alegria tomasse conta de mim, trazendo pequenas lembranças afetivas de todas aquelas pessoas e lugares que senti falta.

Ainda no aeroporto, sinto aquele cheirinho de pão-de queijo que acaba de sair do forno: Ah! Que felicidade! A atendente da lanchonete é tão simpática que quase me emociona. É, realmente estou no Brasil.

Quanta saudade dessa terrinha querida!
Luz esplêndida: cheia de amor, cores, quentura e afeto para dar.

Não importa os países vividos... meu coração é daqui.

ilustração: Irisz Agocs

Queridas amigas

Aqui estou, lutando para não afundar no pântano das emoções, nadando pelas águas soturnas que insistem em me rodear.
E eis que surje aquela amiga com uma palavra amor,
um gesto simples, um "não desanime".

E também tem aquela outra amiga que naquele dia de perda profunda estava comigo e ficou durante toda a tarde ao meu lado porque não queria me deixar sozinha.

E tem aquelas amigas que falam: vamos dançar! Vamor rir!
E viram crianças comigo.
Tem outras que só escutam o choro e abraçam.
Tem aquelas que são meio mães.
Outras são quase "mestras" espirituais, tamanha sabedoria.


Todas essas amigas tem um jeitinho especial de ser.
Essas palavras são para todas elas que tem trazido claridade
num momento em que parece só ter escuro...
Aconchego na solidão, na perda e na saudade.
Amor quando tudo parece árido e sem sentido.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Aos poucos



Aos poucos, a vida sorri novamente.


Ainda dói...
Mas a cada dia ensolarado,
a cada cheiro de árvore doce
a força volta, vagarosa, feito raiz.

E posso alçar vôo mais uma vez.

ilustração: Irisz Agocs

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Dor de Mãe



Depois da morte da filha, a Dor daquela Mãe é um buraco negro de
imensidão incalculável.
É tanta dor que essas palavras tornam-se bestas por tentar traduzi-la.

O que fazer com essa Dor que cobre o espaço sideral? Aonde se agarrar? Em que borda segurar para não se afundar nessa lama desesperada? Para não sucumbir a capa escura, a loucura da noite que não enxerga mais o dia? Para aliviar o soluço e o tatear monocórdio da escuridão?


Nessa hora, Mãe - em que o Sem Sentido da vida se faz presente - te dou o meu abraço, meu colo e aconchego. Seco e compartilho suas lágrimas. Te dou todo Amor possível, pois quem sabe esse Amor não te alivia por apenas um segundo?

Te ofereço o sol, dentes brancos alegres, poesia que levanta, arte que acaricia e cura. Tento assim deixar vivo aquele pontinho no seu coração que resiste, e teima em acreditar que ainda existem estrelas nesse mundo.

ilustração: Nicoletta Ceccoli

sábado, 20 de junho de 2009

Duas faces da dor

Meu cabelo escureceu e também o meu humor.
Meu coração vaga sombrio pelos cantos.
Dor de perda
Dor de dor.

Ouvi dizer outro dia que a Dor e o Amor
são apenas faces opostas da mesma moeda.

Mas então como faço para ser apenas o meio da moeda?
Aquele centro que não é nem uma face nem outra?
Como faço para viver na essência... e não nas polaridades?


Como faço para doer menos? Para não chorar tanto?
Para sentir sem tanta intensidade.


Bálsamo de margaridas brancas talvez?
Banho de rio gelado? Canto de beija-flor açucarado?
Não sei bem...

No momento, estou quietinha,
tentando escutar tudo o que está dentro.`
As vezes ouço um alvoroço completo, um bater de asas ansiosas.
Outras vezes ouço só o Silêncio.

No Silêncio, por alguns minutos, é possível me sentir melhor.
Sinto um calor quente e aconchegante que vem de dentro.
Lava que vai cobrindo vagarosamente as feridas que sangram...
Quem sabe elas param logo de sangrar?
Algumas saram rápido, outras duram mais que uma vida.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Valentina virou estrela

Para Valentina, Tomás e Natasha

Valentina, você - pequenina como orvalho- passou por aqui como foguete voando no espaço, mas foi um cometa iluminando o nosso céu. E mesmo tendo ficado por tão pouco tempo, você despertou em nós um amor incomensurável. Antes de você nascer, eu nunca poderia imaginar que a vida podia habitar um corpo tão delicado e pequenino. Você, Valentina, foi a mágica da vida para mim. Aquela mágica que outras vezes já passou por mim despercebida.

Depois de toda a sua luta por aqui, você preferiu ir para o outro lado do arco-íris,onde virou uma estrela. Essa estrela-Valentina brilha mais que qualquer sol que conhecemos e nos desperta um amor nunca visto antes. Fico feliz em poder olhar para o céu e te ver lá brilhante, um diamante luminoso inundando tudo. Quando a saudade aperta demais é só olhar para você por um tempo- estrela única e mágica de nossas vidas - que logo é possível te sentir pertinho da gente. E então é como se você tivesse sempre aqui: nas estrelas risonhas dos nossos corações.

***************************************************************************************************


ilustrações: Irisz Agocs

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Pequenina como Fada

Para minha afilhada, Valentina

Meu coração se despedaça - feito papel na água- ao sentir a dor profunda desses que amo tanto. Minha afilhadinha e sobrinha, mal chegastes ao mundo, tão pequenina como fada e tão árdua já é sua luta. Queremos tanto que você fique por aqui, para comer pirulito colorido de caracol com sua Dinda e ver pipoca dourada estourar na panela. Para que eu possa te mostrar o pôr do sol que me deixou sem ar hoje. E que você possa correr saudável no jardim de roseiras melosas, aprendendo a tropeçar, a rir e a pegar na mão.

Ao escrever para ti lágrimas de sal encharcam tudo. A incerteza do Agora atormenta todos nós e faz cada minuto parecer uma ressaca turva sem fim...Por isso, para amaciar o duro e a dor te escrevo palavras de amor. Amor leve feito bexiga de criança. Te envio a alegria-amor de estourar bolinhas de sabão, de enxergar o brilho arco-íris de um cristal, de sentir a doçura do algodão-doce rosa que derrete na boca e deixa saudade.

Águas Escuras

Para minhas sobrinhas e família

Por águas escuras temos passado por aqui, nessa Terra do Norte. Cada notícia importa, cada sinal de melhora é um gritinho, um choro de emoção. É o sopro da vida na luta contra o Não. O começo- de quem mal começou- lutando contra o fado assombrador da morte. Hoje tivemos mais uma vitória da Esperança.

Quem sabe aquele Tango logo não começa a tocar? E assim, logo logo minhas sobrinhas poderão correr soltas pela grama verde do "great lawn" (como dizem os nova-iorquinos de nariz em pé).
Poderão laçar cavalos alados ou ser talvez bailarinas rosadas, cheias de tule... Não vejo a hora de escutar esse Tango.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Primeiro Amor

Sabe aqueles amores como folha de outono? É como cabelo loirinho de bebê, pólen de flor amarela, roupa secando no varal. É como cheirinho de comida caseira na panela, o primeiro raiar de um dia de verão.

É o filho que nasce.
O amor de mãe que cobre o filho.
O pai que seca a lágrima de emoção.

É o amor que encanta e move o mundo

Dois Amores



Tem uns amores que chegam intensos, relampejantes. É a conexão imediata, labareda que invade e toma conta, sem eu me dar conta. Mas tem outros que vem macios como bochechas de menina; açucarados feito casadinhos.


Queria descobrir a receita para fazer desses dois amores - 2- um só.
Unindo o arrebatamento com a candura.
O toque suave com o apaixonar louco, sem limites .
Seria o romance do sol com a boca da lua.
O mar de ressaca com o som do vento.
A textura da pele com o cheiro que acolhe.
O piscar dos olhos com a língua da boca.

ilustração: Irisz Agocs

sábado, 30 de maio de 2009

Jabuticabeira


A jabuticabeira da minha varanda dá flores brancas com perfurme de arco íris. Nos dias amargos ela- tenra árvore- me estende as mãos-folha cheia das doces frutas. As jabuticabas gordas e suculentas derretem-se em minha boca alegre. Nos meus dias de Sol lá está ela, a jabuticabeira formosa sambando ao vento comigo. Nos meu dias de Nuvem, a jabuticabeira sente o tempo estranho, assobia e como quem não quer nada me abraça amorosa com seus galhos de chuva.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Coração de criança



Eu tenho coração de criança que berra, chora, esperneia.
Mas ele faz isso escondido, pois é coração tímido.
Se esconde na barra da saia e faz bico feito tromba de trompete.
Ele, triste, não quer aparecer feito palhaço
e por isso se enterra
na areia movediça da praia.

Eu prefiro quando meu coração criança
volta a desenhar naquela areia molhada.
A criança com asas cria até doer o dedo
e nem se preocupa com sims e nãos.

Brincando de imaginação infinita

colore cada traço em branco,
cada franzir de testa,
qualquer e todo pesar.

Ilustração: Irisz Agocs (http://artistamuvek.blogspot.com)

O acorde certo



Nessa semana estive tão fraca. É como se não restasse energia nem para respirar.
Muitas vezes sinto - e quase vivo- a dor profunda do outro. Na tentativa de salvar aquela pessoa querida muitas vezes me afundo na onda agitada, engulo água, perco meu prumo e ainda caio de cara na areia. Na dualidade de ser ora muito forte, ora extremamente frágil vou tentando descobrir o acorde certo, a harmonia do possível.

Ilustração: Irisz Agocs (http://artistamuvek.blogspot.com)

sábado, 16 de maio de 2009

Entrelace

Eu saio na noite em busca... E a busca depende da noite, do humor, da cor da lua. Tem noites que busco aquela melodia acquosa, fluida. Noutras quero o dançar frenético, as músicas esfuziantes, a liberação dos prazeres.

Mas nesta noite, quero apenas o teu beijo vagaroso. Esse afago, carinho pluma que me arrepia o corpo. Seu toque suave e harmônico é ao mesmo tempo intenso, fogos de artifício. Me entrego nos artifícios dos teus entrelaces noturnos.

Árvore



Olho para essa árvore frondosa
que só a raiz dá duas de mim.


Árvore, como faço para ser como você?
Impávida, grandiosa,
sendo apenas você mesma
nas tempestades da vida
no sol, no vento, no tempo.


Como faço para ser tronco firme,
mas folha que chora como cachoeira
e galho que se flexibiliza
em um abraço?

Ensina-me a dança
das suas folhas
o encanto do existir.

foto: Christopher Isenberg

Palavras

Como é que pode? Palavras -`as vezes uma palavra - mudar toda uma vida? Porque foi isso que aconteceu nessa noite. Conversando com o meu pai , ele me disse as palavras exatas que mudaram todo um registro já antigo, empoeirado sobre o que eu achava que era. Era, continuava sendo e não podia mudar.

Reconheço que eu também estava de coração aberto para vibrar e botar para dentro as palavras ditas. Eu realmente ouvi e internalizei, palavras que talvez antes não daria importância, mas que hoje, sentindo-me frágil e apertada, foram essenciais para que todo um registro de vida fosse mudado.

Para mim essa noite seria mais um jantar de taças vinho escuro tintilantes e conversas aéreas logo esquecidas. Nem a chuva fina lá fora imaginaria que nesse encontro com as palavras aveludadas de meu pai, eu teria a chance de reconhecer em mim aquela nova essência, natureza oculta que agora - ainda surpresa - me deparo.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Vidro


O mesmo vidro que brilha e reluz
estrela pontiaguda
corta e sangra a pele.


Em que vidro vens tocando?
A maneira de tocá-lo é essencial:
Rispidamente ou com ternura?


Depende do humor,
da nau dos ventos pensantes,
do pesar chuvoso do coração.


Coração que`as vezes
é vidro fosco e opaco,

outras vidro límpido acesso.

Foto: Philipe Pithon

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Dançando a dois




Dançando a dois meus pensamentos param, entram em total silêncio e eu viro só sentir. Sinto o corpo e os passos do outro me guiando... Me perco nos passos ritmados do bailar. A música transborda pelo meu corpo. Vivo só a dança e tudo o que ela me traz: calor, movimento, contato com o outro, o rubor da pele, o respirar ofegante, o encontro dos corpos, rodopios, o roçar dos quadris, pernas, passos sincopados, descompassados, calafrios, o cheiro, o tato, o corpo virando líquido, a liberdade de voar.

Na plenitude da Dança não há questões ou que serás.

Feito estrela



Você leu essas minhas palavras tentando me decifrar.
Mas bastava perceber os meus olhos brihantes feito estrela,
piscando exagerados (como num desenho animado)
que perceberia o que palavra alguma poderia expressar.

Sonhos



Me perguntam: você ainda não desistiu?

Mas como é possível desistir dos sonhos, daquele balão amarelo-vermelho que infla e sobe comigo? A intensidade que sinto em cada uma dessas experiências - de amar, de doer, de ser- não me deixa parar. A fixidez é algo que há algum tempo desconheço. A faxina interna é densa e incansável. Nesse camaleonar de formas, pensamentos, esqueço quem fui.

Descubro a cada gota quem sou.
Descubro em cada toque essa nova mulher.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Sobre as Dores




Eu durmo encolhida como concha na esperança de que nos sonhos multicoloridos tudo sare. Mal acordo e lá vem aquele buraco doído que faz uma algazarra dentro de mim. Enfio a cabeça dentro dele e quase saio do outro lado (como é fundo!).

Na lama das emoções fico esperando os minutos passarem. Alguma dessas dores fraquejam, se cansam com o tempo e dizem: Adeus! Mas tem aquelas que, não importa a maré ou dia de sol, estão sempre lá. Essas me preocupam, pois vazam um rio. Arde. Cutuca. Incomoda. Dói.

Algumas dores tento curar com bálsamo de flor de lótus, corredeiras límpidas e tranças de menina. Cada uma dessas dores nasceu de um jeito e por isso são únicas. De umas viro amiga, confidente, até amante! Com outras ainda brigo, fecho os olhos, cruzo os braços, perco a paciência e tateio no escuro.

É o eterno vai e vem do sentir.

ilustração: Nicoletta Ceccoli

domingo, 10 de maio de 2009

Sobre as Partes

Ouvi dizer que aquelas partes minhas que eu não quero olhar são as que depois ficam enormes e me Devoram. Sim! Devoram com letra maiúscula. Por isso faço o seguinte acordo com elas: eu as olho só um pouquinho e até levo para passear! Em troca é só não me incomodar. Tem que virar coisa invisível, notícia desbotada, cacos caquéticos que não colem mais. Depois é só sumir no espaço como cometa. Não é simples?

Eis que pula uma dessas minhas partes- que insisto em não aceitar- no meu colo e me encara. Você não tem senso de humor! Jogo essa parte no chão e ela se quebra como um espelho...
E agora são milhares de partezinhas que eu não queria ser. Não tem jeito. Repiro-as para dentro antes que me possuam.

......................................................................................................

.....................................................................................

................................................................
.............................................
..........................
.................
......
...
.

Zum... Zum



O meu coração fica apertado como ponta de alfinete. Vejo a vida passando galhofeira, dando risada ao meu lado, me mostrando o caminho dos outros. O furacão interno, a espiral que gira gira, bailarina lunar, já não é suficiente para me levar adiante. Sinto-me batendo no vidro, melancólica e um zumbido... Zum, Zum...

Para onde vai esse rio? Eu mesma não sei. Quero que flua com direito a redemoinhos, ilhas flutuantes e peixinhos reluzentes`a luz do dia.
Água viva dançando transparente.

Que venha o inusitado.


ilustração: Nicoletta Ceccoli

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Gira gira

Ar delirante
Ar dançante

Gira gira comigo
Na dança das minhas partes tontas desatinadas
Partes que já não alcanço
E me põe louca ao seus pés

Sobre Roteiro



Eu gosto de escrever roteiro. Não me leve a mal. Mas eu estava restrita, amarrada, presa no tempo e no espaço do roteiro:

INT. CASA FECHADA DO ROTEIRO- NOITE

Hoje me permiti sair e olhar para fora. Mudar de ângulo, ver o que a miopia já não me deixava escrever. As palavras podem libertar, mas eu me aprisionava no formado marcado, na cadência rítmica de "achismos", regras e roteiro. Um roteiro que a vida era obrigada a ser.

Se eu for demais estraga? Se voar alto machuca? Se sentir demais dói!

Pois deixe doer então! Melhor do que seguir na apatia e correntes do que não quero mais. Pode vir! Como a chuva que umedece o peito e leva tudo aquilo que não sou mais.